Federeração de Esgrima do Estado do Rio de Janeiro
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ESGRIMA NO TEATRO

Publicado em 23/02/2016


Matéria sobre Edward Gordon Craig e Jacques Copeau e o emprego da Esgrima no teatro.

EDWARD GORDON CRAIG (1872-1966)

A busca de Craig é penetrar no cerne do mistério teatral. Suas principais idéias estéticas são:
 

  • Oposição formal ao realismo que fotografa a realidade, em vez de transmiti-la artisticamente. "O realismo é apenas exposição. A arte é revelação."
  • O ator não deve se esforçar para parecer bem em um papel, mas deve nos mostrar "como cada coisa é bela."
  • O teatro não se destina a nos mostrar a imagem da vida e dos males daqui, deve "suscitar em nós a nostalgia do que não é deste mundo."
  • À palavra vida, incessantemente glorificada pelos realistas, Craig opõe a palavra morte. "O mundo desconhecido da imaginação é somente a morada da morte."
  • Busca da arte sacralizada, que representa deuses e heróis, não homens.
  • Preconiza a atuação de marionetes e via nesta marionete um símbolo. A marionete, diz Craig, "pode ajudar o ator a se libertar das imitações de uma interpretação realista que só o leva a excessos e maneirismos." Não via a marionete no sentido caricatural, mas no seu sentido cerimonial, ligado às suas origens ritualísticas ou às manifestações religiosas do Oriente. A marionete esfinge. Sonha com uma super-marionete, símbolo da divindade, sonha em ressuscitar uma cerimônia em louvor à criação. Num primeiro momento, Craig deseja substituir o ator humano por uma marionete, pois segundo ele, o ator traz emoções difíceis de serem controladas pelo seu excesso de egocentrismo.
  • O teatro ideal para Craig é o teatro que ele chama de durável, no qual o ator deve controlar o seu corpo para que o mesmo não seja afetado pelo seu ego. Por isso propõe a super-marionete, que será dotada de vida e paixão, mas rigorosamente controlada e despida de egoísmo. Neste sentido, o teatro clássico hindu é o que corresponde ao seu ideal: intérprete com técnica perfeitamente afiada, o código dirigindo a expressão e a espiritualidade. Ele pensa em suscitar um super-ator.
  • Mais do que uma técnica eficaz, Craig sugere a necessidade de uma ética: renunciar à ambição pessoal, ao sucesso passageiro. "Seu objetivo não é se tornar um ator célebre, mas um artista de teatro." Ele diz: "Se após cinco anos de palco você tiver sucesso, considere-se perdido. É preciso dedicar a vida inteira à busca."
  • Quer levar os atores a não ficarem presos à reflexão: "não é pensando que se pode ver o céu, a gente o vê, nós o percebemos através de nossos sentidos. Sentido e alma em vez de cérebro, o meio mais elevado e não o mais baixo."
  • Teatro é gesto e movimento em dança.

JACQUES COPEAU

Copeau vai empenhar-se, no seu trabalho no Vieux-Colombier, em ressuscitar um teatro liberto das velhas convenções: "um teatro novo sobre alicerces intactos, e limpar o palco de tudo quanto o suja e o oprime." Tudo que distrai a atenção do essencial, tudo que é ornamento espetacular, é inútil e nocivo: "a encenação não é o cenário - é a palavra, o gesto, o movimento, o silêncio; é tanto a qualidade da atitude e da inflexão quanto à utilização do espaço." Copeau inclui a rítmica de Jaques-Dalcroze em seu projeto do Vieux-Colombier, buscando desenvolver não uma técnica em si, mas no sentido de criar um estado de espírito e uma disponibilidade muscular. Indignado com as práticas do teatro comercial, ele deseja recuperar o homem-ator.

Em 1913, ele já sonhava com uma escola técnica para a renovação da arte dramática francesa. "Será um local de comunidade, onde o aluno seguirá um treinamento." Criar um grupo de trabalho para experimentar métodos de reeducação teatral, em que a formação corporal possa tornar-se sistemática - esta é uma busca dos homens de teatro neste novo tempo. Copeau, em seu trabalho, torna o ator mudo temporariamente. Força-o a sentir de novo a necessidade de exprimir-se, depois a exprimir-se de outros modos, além da palavra, falar com palavras e sons rudimentares, pouco numerosos, mas justificados e essenciais. É o método da Improvisação.

Inspira-se na Comédia dell'arte. Tira os textos prontos do ator e o reconduz à pobreza do Canovacci, buscando despertar a imaginação, desenvolver a capacidade de jogar e de inventar. No Vieux-Colombier os atores praticavam a ginástica rítmica, a esgrima, a acrobacia, a dança e o canto. Canovacci era um roteiro usado pelos atores da comédia dell'arte, a partir do qual criava-se o espetáculo. Não havia um texto pronto, acabado.

Desenho para Macbeth, 1909

Craig cria sua escola em Florença. Mais que uma escola, Craig quer construir um laboratório experimental, onde o importante não é montar uma cena ou um espetáculo, mas formar gente de teatro. Depois do ator se exercitar em várias disciplinas, vai descobrir "cientificamente" os princípios gerais, que vão permiti-lo montar todos os gêneros de peças. A escola de Craig constituiu-se de alunos seniores e juniores.

Os grupos dos seniores eram em número de vinte, com idade entre 20 e 40 anos. Um grupo composto de jovens músicos, pintores, arquitetos, eletricistas. Participavam da pesquisa e eram professores dos juniores. Os juniores, alunos pagantes, faziam estágio de uma temporada, durante a qual trabalhavam a voz e o movimento. A preocupação não era ensiná-los a representar. Estudavam várias disciplinas e depois passavam por um exame eliminatório. Os aprovados continuavam na escola por um período de dois anos e podiam então, escolher uma especialização.

Na escola de Craig, os alunos exercitavam ginástica, dança, mímica, esgrima, voz. Iniciava nos planos de cenário, na construção de maquetes, na iluminação. Tinham aulas de história do teatro e história da marionete, como também aprendiam a manipulá-la. Craig ajuda os alunos a descobrirem o ser humano que há neles, mas exige que ultrapassem a sua personalidade. "O artista morre por sua arte."

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